Lugar de mulher é onde ela quiser: conheça Nilmara, a única treinadora da Copa SP

Treinadora do Manthiqueira, de Guaratinguetá, ignora o machismo e comanda a mesma equipe há cinco anos

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Nilmara Alves, de 35 anos, tem um grande desafio para enfrentar às 18h45 desta quarta-feira, 11: conduzir o Manthiqueira na vitória contra o Corinthians na primeira fase do mata-mata da Copa São Paulo de Juniores. Este, no entanto, não é o primeiro obstáculo de sua carreira. Nilmara é a única técnica mulher dentre os 120 times da Copinha e precisa. Ao longo dos cinco anos à frente do clube, ela enfrentou o machismo de uma profissão predominantemente masculina. 

A ideia de colocá-la como treinadora do time de Guratinguetá veio do presidente Dado Oliveira. Em 2012, o dirigente decidiu dar uma chance a Nilmara, que havia feito parte de todo o processo de formação do clube. Como educadora física formada, ela foi a responsável, ainda em 2011, por assinar os papéis para a criação da escolinha de futebol de São Caetano que tinha filial em Guaratinguetá e que deu origem ao Manthiqueira, registrado na Federação Paulista de Futebol.  

"Ela está conosco de 2004 quando éramos uma escolinha do São Caetano ainda. Precisávamos de alguém com registro no Cref (Conselho Regional de Educação Física), e ela assinava os papéis. Ela conhece nossa filosofia de trabalho, tem muita afinidade. Em 2012, resolvi que era hora de dar uma chance a ela, mas muita gente me chamou de maluco, falando que era loucura, que isso era bobagem e só servia para ganhar mídia. Ouvi muita coisa", disse o presidente do Manthiqueira, Dado Oliveira, ao UOL Esportes.

"Quando decidi colocar a Nilmara como treinadora, perguntei a ela o que faria se estivessem gritando Nilmara arrombada, piranha, f.d.p.. Ela me disse que isso faz parte do futebol e não teria problemas. Vi que ela estava pronta para este desafio", contou o dirigente ao UOL, que também é aposentado da aeronáutica, filósofo e escritor.

Não é a única amostra do bom espírito do dirigente. Ele também é conhecido por pregar o fairplay e a ética acima de tudo. Nada de simular falta ou fingir que a bola não tocou a mão. Os jogadores do clube são incentivados a atuarem como mais como "artistas" e menos em postura de "guerra", com base nos princípios do filósofo Kant.

Na entrada da sede do clube, uma cartilha traz uma série de regras a serem seguidas por jogadores e funcionários. A primeira delas: "Malandragem proibida". "Grande parte das coisas tem funcionado, o processo é doloroso, mas prefiro chegar a elite desse jeito mesmo", declarou o presidente, 2015, ao Terra

Nilmara conta que, no início da carreira, temia a reação da torcida, mas que foi surpreendida de forma positiva. "Imaginava que haveria muito preconceito e seria difícil, mas foi mais fácil do que imaginava. O trabalho fluiu bem, a torcida comprou a causa", afirma Nilmara. 

Quem não compra a ideia são as torcidas adversárias, mas ela encara os xingamentos de forma natural. "Claro que muitas vezes existem xingamentos por parte dos torcedores dos adversários, mas é normal, como se fosse para um homem. É coisa normal de futebol para atrapalhar a equipe adversária", explica. "Ouço coisa machista. Falam que lugar de mulher é no tanque, lavando roupa, ou na cozinha. Encaro mais como uma forma de tentar atrapalhar", acrescenta.

Ela é feliz no Manthiqueira, mas também sonha em treinar um grande time. Eu acho que agora ainda é difícil. Tem esta barreira, tem este bloqueio com as mulheres. Mas estamos evoluindo cada vez mais, conquistando espaço. Quem sabe no futuro a gente não consiga entrar nestes clubes?", afirmou. "Mas também não descarto a possibilidade de ir para um time de futebol feminino".

As informações são do UOL Esportes e da Vice.

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